quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Tirar a Máscara

Quando chega o Carnaval é a altura de todos usarem as respectivas máscaras para poderem ser aquilo que sempre desejaram ser. Eu proponho que tiremos todas as máscaras e sejamos ao longo de todo o ano aquilo que desejamos ser, isto é, autênticos.

Hoje o Carnaval perdeu o seu significado inicial. Antes tratava-se de uma época em que, por toda a Europa, os povos espezinhados pelos senhores dos privilégios tentavam subverter a realidade e, pelo menos por alguns dias, provarem o sabor da igualdade e da liberdade. Actualmente o Carnaval é pouco mais do que um negócio, que ultrapassou as fronteiras da velha Europa e se transformou num fenómeno de globalização e aculturação capitalista.

Retirem-se pois as máscaras e vivamos os 365 dias do ano de acordo com as nossas convicções e não afectados por recalcamentos.

Curiosamente o nosso País atravessa neste período uma época eleitoral. Muitos, quase todos, usam máscaras para esconder o seu verdadeiro pensamento e transfigurarem a realidade, tentando fazer dos Portugueses os seus bobos que se deixam manipular facilmente pela propaganda. Nunca uma campanha eleitoral foi tão desinteressante e tão desprovida de ideias, sobretudo por parte dos partidos que aspiram à área do poder.

Sou de esquerda, mas não tendo vocação para militâncias partidárias, não sou apolítico. Tive a sorte de beneficiar das lutas dos outros que me possibilitaram que desde os 18 anos possa exercer o meu direito e dever de voto ou de escolha. Essa escolha tem sido difícil, dentro da área da esquerda, porque não sendo eu militante partidário não me revejo em nenhum partido mas, evidentemente há pontos em comum com a generalidade dos partidos de esquerda. Desde o 25 de Abril que já votei praticamente em todos os partidos ou candidatos de esquerda, conforme as conjunturas do momento e as minhas próprias convicções. Houve uma altura em que cheguei mesmo a votar nulo como forma de protesto.

Uma vez que não abdico do meu direito e do meu dever de voto, não tenho muitas alternativas de escolha no próximo dia 20. Ou voto num determinado partido ou voto em branco. Já aqui defendi, na altura em que se falou tanto do voto em branco aquando do lançamento do último livro de Saramago, que um voto em branco, ou nulo, tem que ter um significado à priori, doutra forma é um voto inconsequente e que nada acrescenta na luta contra o actual sistema democrático que tem vindo a afastar os cidadãos do exercício da cidadania. O discurso da casta política sobre este tema não passa de faits divers, isto é de máscaras, pois a abstenção aumenta de eleição para eleição e tudo fica na mesma. No dia seguinte repete-se o mesmo discurso de sempre e tudo volta à podre normalidade.

Sem uma definição clara do significado do voto em branco ou nulo, sou obrigado a optar pelo mal menor e, nestas eleições, o meu ponto de vista levar-me-á a votar no Bloco de Esquerda. É um voto escolhido racionalmente, mas que não me identifica totalmente com este partido, para mim é o mal menor, porque este partido apresenta algumas ideias interessantes e não se fecha em fundamentalismos e/ou dogmatismos. Apesar de considerar que é o mal menor, não quer dizer que seja um voto pela negativa, pois senão, com significado ou sem significado, não me restaria outra alternativa que não fosse a do voto em branco ou nulo. Voto no Bloco de Esquerda com a convicção que é aquele que mais se aproxima da minha maneira de ser e o que apresenta propostas mais interessantes para os Portugueses. Voto no Bloco de Esquerda porque gosto da generalidade dos seus candidatos pelo meu Círculo Eleitoral, o Círculo do Porto, particularmente do Teixeira Lopes e da Alda Macedo (companheira de lutas sindicais, dinâmica e coerente).

Sou ateu, heterosexual, anti-dogmático, anti-fundamentalista e defendo, em casos extremos, o recurso ao aborto e à eutanásia, sem banalização. Nada me move contra os que têm outras opções, desde que sejam autênticas. Não tenho preconceitos, não defendo dogmas, não pretendo impor a minha posição a quem quer que seja, mas tolerância não é significado de indiferença, pois continuo a minha luta sozinho, ou acompanhado, mas sem chefes, contra a intolerância, o fundamentalismo e o dogmatismo. Não tenho a certeza de estar certo, mas a cada momento tenho a certeza que as minhas decisões estão de acordo com as minhas opções e são as correctas para mim. Não posso aceitar que alguém se considere o detentor da verdade e tente impô-la aos outros, impedindo o livre arbítrio e a liberdade de escolha.

As estruturas sociais, políticas, económicas e religiosas têm-se alterado ao longo dos tempos. É certo que algumas transformações conjunturais são muitas vezes entendidas como estruturais e este erro é tão mais frequente quanto mais nos aproximamos da nossa contemporaneidade. Ainda bem que as estruturas se têm alterado, pois de outra forma continuaríamos na Idade da Pedra e a evolução humana teria parado no tempo.

Tenho plena consciência que existem outros mundos para além do nosso, quer no sentido literal quer no figurado. Por isso o futuro reservar-nos-á muitas surpresas.

Como não sou perfeito, longe disso, tenho consciência que o caminho se faz caminhando, por isso vou traçando o meu caminho com os meus defeitos e as minhas virtudes.

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Excelente 'post', assino em baixo! _ IO.

2/10/2005 2:37 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Muito bom este post. Claríssimo! Parabéns, é bom ler gente assim. Obrigada pela partilha.
Manuela

2/10/2005 4:10 da tarde  
Blogger th said...

Admirei sobretudo a frontalidade e vim pela mão duma amiga que sabe o que quer e diz o que pensa, a IO, do Chuinga. Eu, uma tripeira a viver em Lisboa, th

2/10/2005 6:23 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Na alegria da diferença na forma de habitar a margem esquerda do rio, só te posso dizer, caro amigo, um abraço. Votas bem que eu também, embora noutra banda. E vamos continuar por aí em outras andanças, na esquerda em liberdade armada em libertária. João Tunes

2/10/2005 10:23 da tarde  
Blogger Werewolf said...

A margem esquerda é a mais bela, é o lado de lá é o lado da liberdade, da pluralidade da tolerância, é a margem das convicções, é a margem do ócio que se opoõe ao negócio (no sentido grego de ambas as expressões).
É uma margem umas vezes agtete e rude, às vezes rude de mais e perigosa, outras vezes bela, suave e doce, às vezes doce de mais que nem parece verdadeira.
A mim o que me atrai mais na margem esquerda é o seu mistério, as suas interrogações, as suas imquietações, a sua permanente busca, os tropeções e os avanços, o erro e a vontade de acertar, a tolerância, o anti-dogmatismo e anti-fundamentalismo, a curiosidade, abrir portas, mas não capitular, nunca virar a cara à luta contra as intolerâncias, os dogmatismos ou os fundamentalismos.
Se o caminho se faz caminhando é na margem esquerda que contuaremos a percorrer os nossos caminhos, com liberdade e libertária.
Obrigado a todos e desculpem lá esta pontinha de vaidade, neste meu comentário meio tolo, Como dizes João, "cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas".

2/11/2005 10:17 da manhã  

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